Eu sou a Mia e eu escrevo umas paradas aqui e ali. Você pode acessar meu tumblr ou blog.
Aqui vou colocar artigos e traduções para ajudar qualquer um que quer escrever ficção.
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Fontes: A jornada do Escritor, Christopher Vloger
How to write a damn good novel, James N. Fray
A diferença entre nossa vida e a ficção é que a ficção precisa fazer sentido. Precisa de começo, meio e fim.
O mundo comum é aquele em que seu herói (ou heroina) está acostumado a viver. Não exatamente que seja do agrado dele. É a sua rotina e qualquer coisa que não segue aquele esquema, se torna, mesmo que sem querer, algo fora do comum.
A maioria dos grandes heróis é, no começo, um exemplo de peixe fora d’água. Ele não vive, no máximo, ele existe. Os leitores sentem isso desde o primeiro momento. Mas, como disse o Christopher Vloger, “para tirar alguém do seu ambiente costumeiro, primeiro você precisa mostrá-lo no Mundo Comum, para poder criar um contraste nítido com o estranho mundo novo em que ele vai entrar”.
O personagem principal é um arquétipo de HERÓI. Existem, aparentemente, dois tipos de heróis: os decididos – ativos, que não vêem a hora da aventura começar e os poucos dispostos – cheios de dúvidas, hesitações e que precisam ser motivados por forças externas para que se lancem numa aventura.
Geralmente, para uma melhor experiência dramática, é melhor que os heróis poucos dispostos mudem de postura em algum ponto da história.
Existem também os chamados Anti-heróis. Eles não são o contrário de herói, mas um tipo especial de Herói. Alguém que pode ser um marginal ou um vilão, dependendo do ponto de vista (social, digamos assim), mas que as pessoas irão se solidarizar.

Existem também 2 tipos de anti-herói. São pessoas que podem se comportar como heróis, mas têm um forte toque de cinismo ou uma ferida (interna) difícil de se curar. Aos olhos da sociedade, eles são foras-da-lei, como Robin Hood.
Amamos esses personagens porque são rebeldes e torcem o nariz à sociedade, como gostaríamos de fazer.
O segundo tipo é o que se aproxima da clássica idéia do herói trágico. São heróis com defeitos, que nunca conseguem ultrapassar seus demônios e são derrotados e destruídos por eles. Sempre seus defeitos ganham de suas qualidades. As pessoas observam sua queda com fascínio, pensando algo como “Graças a Deus não aconteceu isso comigo, porque no fundo, eu sou assim”.
Freud chama o arquétipo do herói de ego e diz que “Herói é aquele que é capaz de transcender os limites e ilusões do ego, mas, de início, os Heróis são inteiramente ego, se confundem com o ego, o “eu”, com aquela identidade pessoal que pensa que é distinta do resto do grupo.”
O arquétipo do Herói representa a busca de identidade e totalidade do ego.
“No processo de nos tornarmos seres humanos completos e integrados, somos todos Heróis, enfrentando guardiões e monstros internos, contando com a ajuda de aliados. Na busca de explorarmos nossa própria mente, encontramos professores, guias, demônios, deuses, companheiros, servidores, bodes expiatórios, mestres, sedutores, traidores e auxiliares, como aspectos de nossas personalidades ou como personagens de nossos sonhos. Todos os vilões, pícaros, amantes, amigos e inimigos do Herói podem ser encontrados dentro de nós mesmos. A tarefa psicológica que todos enfrentamos é integrar essas partes separadas em uma entidade completa e equilibrada.
O ego — isto é, o Herói que acha que é separado de todas essas partes de si mesmo — deve incorporá-las para se tornar um ser integral.(…) Um Herói bem construído pode ser decidido, dispersivo, encantador, esquecido, impaciente, forte de corpo mas fraco de coração, tudo ao mesmo tempo. É a combinação especial dessas qualidades que dá à platéia a noção de que o Herói é único, uma pessoa real, e não um tipo”, A Jornada do Escritor.
Heróis sofrem constantes provações. Precisam disso para crescer, amadurecer, agir, se sacrificar e lidar com a morte.
Agora que conhecemos um pouco sobre o arquétipo do herói, podemos voltar ao João. O contador infeliz que passa dia após dia, desejando ter tomado outras decisões na vida.
O Kellerson, de Pelotas, RS, me enviou o que ele criou sobre o mundo comum do João. Vamos lá:
Mais uma jornada acabava. Do lado de fora, João inspirou o aroma de um legítimo ar puro. Motivo para ficar alegre? Não. Era segunda-feira, ainda enfrentaria mais longos quatro dias de tédio até o final de semana. E começar outra… Era um ciclo sem fim.
Ao virar a esquina, João pôde notar que o calor infernal que o atormentara na vinda ao trabalho, havia se transformado em algo acinzentado com raios e trovões e em questão de segundos, jorrava água aos baldes do céu. Passou pela frente de um hotel de luxo, torcendo para que acontecesse que nem em filme americano, em que basta se erguer o braço para surgir um táxi sempre desocupado. Mas era o maldito mundo real. Nem mesmo aquele clássico jornal-guarda-chuva usados nos filmes de Hollywood o protegeria da chuva.
Como toda maravilhosa metrópole brasileira, dia de chuva, trânsito parado, ônibus lotado. O que restava a João era aguentar mais desagradáveis sessenta minutos dentro de um ônibus com a sua capacidade máxima ao cubo, com a roupa encharcada de água misturada com o suor do dia todo.
Rá! Que beleza, hein? O cara não somente sofre no trabalho, como também sobre para chegar e sair de lá. A vida do cara não é fácil. Ele não é exatamente o Bruce Wayne, né?
Acho que a gente já meio que consegue entender como são as outras coisas que o cercam e porque ele é tão desinteressado em interações sociais.
O que faria a vida dele mudar? O que constituiria o CHAMADO A AVENTURA?
São cenas dos próximos capítulos! A gente se vê lá ;)
Christopher Vogler, escritor do livro A Jornada do Escritor (recomendo fortemente!), chegou a famosa receita de bolo de Hollywood (ele diz que não é!), conhecida como A Jornada do Herói!
Estágios da Jornada do Herói
1. Mundo Comum
2. Chamado à Aventura
3. Recusa do Chamado
4. Encontro com o Mentor
5. Travessia do Primeiro Limiar
6. Testes, Aliados, Inimigos
7. Aproximação da Caverna Oculta
8. Provação
9. Recompensa (Apanhando a Espada)
10. Caminho de Volta
11. Ressurreição
12. Retorno com o Elixir
Para ler um resumo de cada um: http://www.roteirodecinema.com.br/manuais/jornadadoheroi.pdf
A primeira etapa é criar o mundo em que o personagem vive, para depois mostrá-lo num novo e melhorado outro mundo, o de aventuras. E nesse post, exercitaremos o Mundo Comum.
Em Harry Potter e a Pedra Filosofal, nós conhecemos primeiramente O Sr. e a Sra. Dursley, que se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado.
O Sr. Válter Dursley trabalha na Grunnings, e sua mulher, Petúnia é dona de casa. Válter passa o dia atendendo a telefonemas e gritando com os funcionários. Petúnia é uma fofoqueira que a única coisa da qual se orgulha é em deixar a casa tinindo de limpa. E tem o Duda, filho do casal, que é um garoto gordo, mimado e muito irritante que passa o dia comendo e jogando a comida na parede.
Esse é o Mundo Comum dos Dursleys, o mundo que estamos cientes de que está com os dias contados para mudar drasticamente.
Vamos criar um personagem e um mundo comum para ele. Digamos que nosso personagem se chame João.
João trabalha de segunda a sexta num cubículo claustrofóbico, em frente ao PC, fazendo cálculos. Por algum motivo que ainda não entendia, acabou virando contador. Passava dia após dia, olhando desfocadamente para a tela, se perguntando se era realmente aquilo que queria fazer pelo resto da vida.
Ele ficava num lugar quente da sala. Ali fedia a Cheetos e o cara que trabalhava ao seu lado, que ele conhecia apenas pelo apelido de Gordo, simplesmente não podia ser humano. Soltava gases de todas as durações, sem aviso prévio, e ainda procurava ao redor, como que em busca do culpado. Áa quatro horas da tarde, João já estava ensopado e enjoado, contando as horas de seu relógio de pulso, rezando para ir embora.
Em sua mesa de trabalho, papéis embaixo do teclado. João gostava de rabiscar quando estava de saco cheio. Ninguém parecia se importar mesmo. Quando era adolescente seu sonho era trabalhar desenhando os personagens da Marvel. Amava quadrinhos. Ele conseguia fazer o melhor Homem Aranha que já viu, de qualquer ângulo, em qualquer posição… mas gostava mesmo era de desenhar uma contadora do prédio, a Ana. Perdia a fala quando ela lhe perguntava qualquer coisa e não conseguia controlar a imensa vontade de sorrir.
Talvez por isso a maioria dos colegas de trabalho ache que João é meio retardado. Ele está pouco se importando com todos eles… aparentemente o sentimento é recíproco.
Em poucos parágrafos já começamos a sentir um pouco a agonia de João. Ele trabalha num cubículo, detesta o que faz e aparentemente vem fazendo isso há um bom tempo. A “sala” fede a salgadinho… o cara do lado peida o tempo todo… é tão, mas tão chato, que às vezes ele olha pra o computador e tudo fica embaçado.
A gente também pode ver que o ambiente de trabalho é uma merda! As pessoas não se conhecem direito, são todas praticamente estranhas e algumas (os que acham que o João é retardado) não devem ser nada amistosas.
Esse é o mundo comum do cara. Uma verdadeira chatisse.
PRIMEIRO EXERCÍCIO DO BLOG!
- Crie mais situações para mostrar (mostrar, não contar) a vida do João em seu mundo comum. Descreva o cara. Crie detalhes vívidos (LEMBRE-SE DISSO!) ao relatar o que acontece com ele. Crie uma história de background pra ele.
Faça as pessoas sentirem pena dele (Oh, Harry Potter, coitadinho, é órfão!). Simpatizarem e empatizarem com ele. Conte o que ele faz fora daquele cubículo. O que o leveu àquele lugar? Por que ainda está ali? Se acomodou? O que o prende ali? É por que tem que pagar o aluguel do apartamento? É por que acha que não sobreviveria em outro lugar?
Mostre a história de João e mande para h.milena@gmail.com que no próximo post, nós descobriremos a vida dele!!
Até o próximo!
E agora?
Você já sabe induzir o sonho fictício, criar detalhes vívidos, mostrar e não contar, criar personagens que o leitor irá simpatizar, empatizar e se identificar e transportar o leitor para sua história… beleza, mas e agora?
Como começar?
- Escreva sobre o que gosta (não necessariamente sobre o que sabe).
É muito mais fácil a história se desenvolver quando você gosta do assunto.
Se você, que é quem está escrevendo e vai passar mais tempo olhando para a história, não gostar, quem é que vai? Se ela não te agrada e não te envolve com emoções, idéias, medo, raiva, solidão, tristeza… então como outras pessoas sentirão?
Fora que é difícil dizer “Escreva sobre o que você sabe” para alguém que curte o tema “Alienígenas“… sério, o que sabemos sobre alienígenas?
Só os clichês, certo?
- Falando em clichê…
Tem gente que é muito paranóico com clichê (né, Arquiles?), mas quando não há saída: “o clichê geralmente funciona, é por isso que é clichê…” e quem disse isso foi o Roman Polanski.
E ele disse “geralmente funciona” porque se usado da maneira errada, o resultado pode ser desastroso.
Lembre-se: o que torna a história original é você.
- São pessoas que você conhece
Personagens não são pessoas, mas certamente são baseados nelas. E você as conhece! Pode existir um personagem com carcterísticas daquela sua tia hipocondríaca, do mala do seu irmão e da mulher que sempre almoça sozinha no restaurante em frente ao seu trabalho.
Conheça seus personagens da melhor forma possível e ele não irá se perder nas páginas da sua história.
J.K. Rowling, autora da série Harry Potter, passou anos trabalhando na personalidade de cada personagem dos livros. E é por isso que eles são tão tridimensionais. Às vezes dá a sensação de que você os conhece muito bem.
- Pesquise
Se existem recursos para que pesquise e se envolva no mundo que está escrevendo, então vá fundo!
- Saiba para quem está escrevendo
Mas não se apegue muito a isso.
- Encontre um problema
Geralmente um livro de ficção vem com um problema. E esse problema precisa ser solucionado. As dicas estão por todos os lados, mas ninguém tem realmente certeza até o Grand Finale.
- Não tenha pressa
Ninguém vai escrever um bestseller da noite para o dia. Não tenha pressa. Pense, reflita, pesquise, planeje e tente não procrastinar tanto quanto eu.
Começou? Já faz algum tempo… então quer dizer que…
- Está uma bosta?
Se você está achando tudo o que faz uma verdadeira merda, acredite, você está no caminho certo.
Isso se chama The Ira Glass Principle, que diz que você tem que produzir um monte de porcaria - coisas que você sabe que são umas merdas - antes de produzir qualquer coisa boa.
Durante os primeiros anos, as coisas que você produzir não serão tão boas. Você está tentando ser bom, tem ambição. Mas sabe que o que está fazendo está ruim. Muita gente não consegue passar dessa fase.
Muitos escritores desistem nessa fase do “mas que merda!”. O importante é perceber que é temporário e que você vai melhorar com o tempo.
Não que as coisas ficarão mais fáceis e você vai deixar de ser auto-crítico. Não.
Mas não desista.
- Agora é contigo, parceiro ;)
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Referencias: http://writersdigest.com e http://writerunboxed.com
Fonte: ‘How To Write a Damn Good Novel’ de James N. Frey.
Tradução quase literal por: Mia
PARTE 5 - O LEITOR TRANSPORTADO
ULTIMA PARTE DA SÉRIE
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Quando transportado, o leitor meio que entra numa espécie de bolha, totalmente envolvido no mundo fictício a ponto em que o mundo real se evapora. Esse é o objetivo do escritor de ficção: levar o leitor a ponto da completa absorção com os personagens e seu mundo.
Em hipnose, isso é chamado de estado pleno. O hipnotizador, em controle, sugere que o sujeito imite um pato e ele o fará com toda a felicidade. Se um escritor de ficção levar o leitor ao estado pleno, o leitor chora, ri e sente a dor do personagem, pensa o que o que o personagem pensa e participa das decisões dele.
Leitores nesse estado podem ficar tão concentrados que para chamar sua atenção, muitas vezes precisam ser sacudidos. “Ei, Charlie! Larga esse livro! O jantar está pronto! Tá surdo?”
Então como levar seu leitor da simpatia, identificação e empatia para o estado de total absorção? A resposta: conflito interno.
Fonte: ‘How To Write a Damn Good Novel’ de James N. Frey.
Tradução quase literal por: Mia
PARTE 4 - EMPATIA
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Apesar de sentir pena de um personagem que está passando por, digamos, solidão, o leitor pode não sentir realmente a solidão dele. Mas através da empatia com o personagem, o leitor sentirá o que o personagem está sentindo. Empatia é uma emoção muito mais poderosa do que a simpatia.
Às vezes quando uma esposa está para dar a luz, o marido também sentirá as dores do parto. Esse é um exemplo de empatia; ele enfatiza ao ponto de realmente sofrer, sofrimento de dor física.
Digamos que você vá a um funeral. Você não conhecia o falecido, Herman Weatherby; ele era irmão da sua amiga Agnes. Sua amiga está de luto, mas você não. Você nem conhecia Herman. Você sente pena de Agnes porque ela está muito triste.
O velório ainda não começou. Você e Agnes vão dar uma volta pelo jardim da igreja. Ela começa a contar a você como Herman era. Como ele estava estudando para ser fisioterapeuta e poder devotar sua vida a ajudar crianças especiais. Como tinha um senso de humor maravilhoso e fazia uma ótima imitação de Richard Nixon e uma vez na faculdade jogou uma torta na cara de um professor que o deu nota 4. Parece que Herman era um cara legal.
Enquanto Agnes trás de volta a vida de seu irmão, você vai o conhecendo e começa a sentir algo além de mera simpatia. Você começa a sentir a perda que o mundo sofrerá por aquele homem inteligente, criativo e maluco… você começa a sentir empatia pela sua amiga, e agora você começa a sentir o luto dela. É esse o poder da empatia.
Agora como um escritor de ficção consegue fazer com que o leitor sinta empatia?
Fonte: ‘How To Write a Damn Good Novel’ de James N. Frey.
Tradução quase literal por: Mia
PARTE 3 - IDENTIFICAÇÃO
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Identificação é muito confundida com simpatia. Simpatia é conquistada quando o leitor sente pena da situação de algum personagem. Mas um leitor pode sentir pena de um miserável repugnante que está prestes a se ferrar, sem ainda sentir identificação com ele.
Identificação acontece quando o leitor não somente sente simpatia pela situação do personagem, como também apoia seus objetivos, aspirações e tem um forte desejo de que o personagem consiga alcançá-los.
Em Tubarão, o leitor apoia o objetivo de Brody de destruir o tubarão.
Em Carrie, a Estranha, o leitor apoia os anseios de Carrie em ir ao baile, contra os desejos de sua tirana mãe.
Em Orgulho e Preconceito, o leitor apoia o desejo de Elizabeth de se apaixonar e se casar.
Em O Processo, o leitor apoia a determinação de K para se libertar das garras da lei.
Em Crime e Castigo, o leitor apoia o desejo de Raskolnikov de escapar da pobreza.
Em A Glória de um Covarde, o leitor apoia o desejo de Henry de provar a si mesmo que não é covarde.
Em E o Vento Levou, o leitor apoia o desejo de Scarlett de conseguir de volta sua plantação depois que ela é destruída pelos Yankees.
Massa, você diz, mas e se você está escrevendo sobre um repugnante infeliz? Como fazer para que os leitores se identifiquem com ele? Fácil.
Fonte: ‘How To Write a Damn Good Novel’ de James N. Frey.
Tradução quase literal por: Mia
PARTE 2 - SIMPATIA
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Ganhar a simpatia do leitor pelos seus personagens é crucial para introduzir sonhos fictícios e se você não conseguiu induzir o sonho fictício, então não conseguiu escrever uma história boa pra cacete.
Simpatia é um conceito frequentemente incompreendido. Alguns autores criaram a pseudo-regra de que para o leitor ter simpatia por um personagem, esse personagem precisa ser admirável. Isso evidentemente não é certo. Muitos leitores têm bastante simpatia por personagens como o Moll Flanders, do Defoe, ou o Fagin de Oliver Twist, do Dikens ou Long Jonhson Silver em Treasure Island, do Stevenson.Não são personagens nem um pouco admiráveis. Moll Flanders é mentiroso, ladrão e bigamo; Fagin corrompe jovens e Long John Silver é um patife, traidor e pirata.

Há alguns anos existiu um filme chamado Touro Indomável (Raging Bull) sobre um ex lutador, campeão de box categoria peso-médio, Jake LaMotta. O personagen no filme bate na mulher, então se divorcia quando está começando a fazer sucesso no ring. Ele seduz garotas menores, tem um temperamento violento alimentado pela paranóia e fala grunhindo. Era totalmente selvagem dentro e fora do ring. Ainda assim LaMotta, interpretado por Robert De Niro, recebeu grande simpatia da audiência.
Como esse milagre é possível?
Jake LaMotta no começo do filme vivia em ignorância, degradação e probreza e a audiência sentia pena dele. Essa é a chave. Para ganhar a simpatia do seu leitor, faça ele ter pena do seu personagem. Em Les Misérables, de Victor Hugo, por exemplo, Jean Valjean é apresentado ao leitor quando chega cansado em uma cidade e vai até a estalagem para comer. Apesar de ter dinheiro, ninguém o aceita. Ele está morrendo de fome. O leitor sente pena por esse homem infeliz, não importa o terrível crime que ele possa ter cometido.
Exemplos de personagens que ganham simpatia pela pena:
Fonte: ‘How To Write a Damn Good Novel’ de James N. Frey.
Tradução quase literal por: Mia
PARTE 1 - O SONHO FICTÍCIO
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Um leitor de ficção espera ficar perplexo no começo e deslumbrado com a genialidade do quebra cabeça no final. Num romance histórico, por exemplo, o leitor espera sentir um gostinho de como as coisas eram antigamente. Num romance, o leitor espera uma destemida heroína, um bonito herói e um monte de paixão ardente.
As pessoas lêem por prazer e nada mais. Mas existe muito em cima disso a ser trabalhado. Como escritor de ficção você precisa transportar o leitor para aquele mundo. Os leitores dizem que são transportados, enquanto lêem, eles sentes que realmente estão vivenciando tudo aquilo e o mundo real ao redor deles, se evapora.
O leitor é levado a sonhar o sonho fictício. E, segundo John Gardner, não importa qual o gênero, o sonho fictício é a forma de dizer que a ficção está funcionando.
O sonho fictício é criado pelo poder da sugestão.
O poder da sujestão é a ferramenta principal dos publicitários, golpistas, propagandistas, do padre, do hipnotizador e, sim, do escritor de ficção. O publicitário, golpista, propagandista e o padre, usam o poder da sugestão para persuadir. O hipnotizador e escritor de ficção usa para invocar um estado de consciência alterada.
Wow, você pode dizer. Parece até místico. De alguma forma, é mesmo.
Quando o poder do sonho fictício é utilizado pelo hipnotizador, o resultado é um estado de transe. Ele vai olhar para você, balançar o pendante e dizer:
“Suas pálpepebras estão ficando pesadas. Você se sente cada vez mais relaxado ao ouvir o som da minha voz”
E enquanto você começa a fechar os olhos, você se acha numa escada dentro de sua mente, indo cada vez mais para baixo, até ficar escuro, quieto. E, surpreendentemente, você se sente mais e mais relaxado.
Ele continua: “Você está num caminho de um bonito jardim. Está quieto e tranquilo. É um preguiçoso dia de verão. O sol está lá fora, uma brisa quente sopra as magnólias e flores…”
Enquanto ele fala as palavras, as coisas que ele mencionou - o jardin, o caminho, as magnóloas - aparecem em sua mente. Você vivencia a brisa, o sol, o cheiro das flores. Você está agora num transe.
Escritores de ficção usam a mesma técnica para levar o leitor ao sonho fictício. Ele oferece imagens específicas que criam o cenário na mente do leitor. Na hipnose, o protagonista da pequena história é o “você”. Na ficção escritores podem usar “você”, mas a mais usada é o “eu” ou “ele” ou “ela”. O efeito é o mesmo.
A maioria dos livros de como escrever ficção avisa para “MOSTRAR, não contar”.
Exemplo de CONTAR: “Ele entrou no jardim e o achou muito bonito.” - O escritor está contando como é, não mostrando.
Exemplo de mostrar: “Ele entrou no jardim silencioso ao pôr-do-sol e sentiu a leve brisa assoprar entre os arbustos de azevinho. Sentiu no ar uma forte essência de jasmim.”
Como John Gardner diz em The Art of Fiction: detalhes vívidos são a vida da ficção. O leitor prova tudo aquilo que está em detalhes. Detalhes físicos que nos levam a estória e a acreditar nela.
Quando um escritor está ‘mostrando’ ele está sugerindo detalhes que desenham o caminho do leitor ao sonho fictício.
Quando um escritor está ‘contando’, ele tira o leitor do sonho fictício, porque isso requer que ele faça uma análise do que está sendo dito, o que deixa o leitor num estado acordado. Força o leitor a pensar, não a sentir.
Ler ficção, então é a experiência de sonhar num nível de subconciente.
Uma vez que o autor criou um mundo cheio de detalhes, o próximo passo é envolver o leitor emocionalmente. E isso é feito ganhando do leitor a SIMPATIA.
— Nos vemos no próximo post sobre SIMPATIA! —